A sociedade da falta

(Baseado no texto ” A sociedade contra o Estado ” de Pierre Clastres)

O texto de autoria de Pierre Clastres explana de forma bastante didática a luta que as sociedades “sem história”, ditas primitivas, historicamente travaram contra o surgimento do Estado. O autor segue uma linha expositiva na tentativa de determinar qual o fator-chave, em que momento essas sociedades param de “exorcizar aquilo que está destinado a matá-las: o poder e o respeito ao poder”. É possível inferir que o autor acredita poder a sociedade civil prescindir da figura do Estado, podendo essa tese ser verificada empiricamente em algumas tribos indígenas.

Logo de início ele afasta o campo econômico dessa responsabilidade pelo surgimento do Estado e vai voltar a defender essa idéia, repetidas vezes, ao longo do texto. Segundo ele, a relação econômica de exploração é precedida e fundamentada pela relação política de poder. O econômico é conseqüência do político, e não o inverso. Prova disso é a relação das sociedades primitivas (termo hoje antropologicamente incorreto, pois que é evolucionista) com o trabalho, tão distinta daquela mantida nas sociedades ditas civilizadas. São sociedades de recusa ao trabalho, sociedades de subsistência por opção; não têm economia por recusarem-na, por não verem nela sentido outro senão a germinação da desigualdade.

Pierre Clastres faz uma sucinta menção às ideias de infra-estrutura e superestrutura de Karl Marx para mostrar que mudanças ao nível da infra-estrutura não acarretam obrigatoriamente transformações reflexas na superestrutura política. Com essa reflexão, o autor reitera o pensamento já desenvolvido de dissociação entre esses dois níveis. O econômico não provoca o político, ocorrendo o contrário. Ele afirma não haver na sociedade primitiva – a “primeira sociedade da abundância” – nenhum “espaço para o desejo de superabundância”.

Uma das conclusões lógicas a que leva o texto é a de que uma sociedade é primitiva enquanto nela não há rei, não há uma figura que representa a “fonte legítima da lei”, enquanto não há uma máquina estatal. O que diferir disso já perdeu sua condição de sociedade primitiva e dá passos na direção da miserável e soberba condição de “civilidade”.

A isso se segue uma apresentação do autor a respeito da chefia nas tribos indígenas. O chefe seria alguém que detém o domínio da linguagem, aquele que sabe usar a fala para persuadir.“O chefe não dispõe de nenhuma autoridade, de nenhum poder de coerção, de nenhum meio de dar uma ordem”. Sua palavra não vincula; a tribo não lhe deve obediência. Na chefia não há poder. Clastres conclui que não é daí que se pode deduzir o aparelho estatal em geral. Seria, se um chefe, ao tentar instrumentalizar a sua tribo em prol de um fim puramente privado (a tribo a serviço do chefe e não mais o contrário), obtivesse sucesso. No entanto, frisa Pierre Clastres, “isso nunca funciona”.

A sociedade primitiva exerce um poder absoluto e complexo sobre tudo que a compõe; ela interdita a autonomia de qualquer um dos seus subconjuntos, inclusive a emergência de um poder político “individual, central e separado”. Mantendo assim, o poder permanentemente difuso. O autor ressalta que uma reduzida densidade demográfica é um meio eficaz de impedir o surgimento de conjuntos sócio-políticos que integram os grupos locais, um meio de “proibir a emergência do Estado”.

Clastres inicia sua conclusão dando como exemplo o caso dos tupi-guaranis, cujos chefes já não representavam figuras sem poder e associa essa emergência do poder político à questão demográfica. Ele faz uma afirmação muito interessante: “não foi a chegada dos ocidentais que cortou a emergência possível do Estado entre os Tupi-Guarani, e sim um sobressalto da própria sociedade enquanto sociedade primitiva, um sobressalto, uma sublevação de alguma forma dirigida, se não explicitamente contra as chefias, ao menos, por seus efeitos, destruidor do poder dos chefes. Queremos falar desse estranho fenômeno que, desde os últimos decênios do século XV, agitava as tribos tupi-guarani a predicação inflamada de alguns homens que, de grupo em grupo, concitavam os índios a tudo abandonar para se lançarem na procura da Terra sem Mal, do paraíso terrestre.” Essa Terra sem Mal seria onde não existisse um poder político isolado, onde não existisse o Estado. Esses homens que concitavam os índios à migração eram os karai e sua palavra não tinha mais função correspondente à do chefe. Sua palavra era profética, virulenta, subversiva, “chama os índios a empreender o que se deve reconhecer como a destruição da sociedade”

A migração religiosa representava a recusa da vida em que a chefia engajava a tribo. O discurso profético responsável por ela é uma tentativa de abolir, recusar, resistir ao Estado. Pierre Clastres levanta a hipótese de nos discursos proféticos estar o germe do discurso do poder. Questiona se aí estaria o começo do Estado no Verbo. Encerra comparando a luta de classes nas sociedades civilizadas à luta contra o Estado nas primitivas.

A dissertação proposta pelo autor se faz clara e bastante objetiva. O texto abre reflexões ricas nos campos da Antropologia, Sociologia e História, proporcionando questionamentos e problematizações a respeito de conceitos anteriormente sedimentados. Por sua leitura permite-se desconstruir o falido olhar sobre as sociedades arcaicas pelo critério da falta. Não possuir Estado aqui não é traço de incompletude, mas atestado de sucesso de uma luta genuína e secular. A explanação leva-nos a direcionar críticas à nossa própria sociedade ocidental, capitalista, “civilizada”. São as nossas as sociedades da falta: falta de igualdade, falta de emprego, falta de escolaridade, falta de alimento, falta de água potável, falta de saúde, falta se satisfação, falta de saciedade, falta de perspectiva de vida para milhões de pessoas. Nessa sociedade da riqueza e da abundância, nada basta. Tudo falta.

(Raissa Lopes)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s