Jargão

Uma lembrança é só uma lembrança até que mexam nela.

 O inteiro é só metade de mim. Eu não tenho mostrado isso por não querer chocar. Tem tanta gente que eu amo e que há pouco tempo passou a mal me conhecer. Não é obrigação de ninguém acompanhar de perto – nem de longe – as minhas desconstruções e reconstruções. Alguns pedaços são substituídos. Alguns são arrancados em definitvo. Novas partes se integram e se sedimentam pra nunca mais ruir, um nunca mais muito instável, hoje eu sei. “Gostei do personagem que você construiu para você nessa fase”, me disseram. “Eu também gostei. Mas ainda não tá pronto. Desconfio que este momento de vida vai ter fim antes dele estar completo.”, eu respondi. “Aí você constroi outro. A vida é isso.”, concluímos (um verbalmente, o outro disse “amém!” em silêncio).  Andei por poucos mares, mas já descobri grandes ondas. Naufraguei e me afoguei. Não sei se consegui voltar à superfície cem por cento das vezes. Talvez o crescimento proporcionado por algumas situações tenha consistido em ficar lá no fundo…indeterminadamente.

E as metades de mim talvez não formem um eu inteiro. Ainda. Há tanta coisa por ser questionada, condenada, absolvida, acrescentada, repelida. Falemos com coragem na primeira pessoa, por mais feia que seja a metáfora: Sou algo cru que está começando a esquentar agora.

Hoje me alimentei do passado e do mistério, mar incerto que é o futuro. Um mar incerto que em nada amedronta, em nada me inquieta. É só maravilhada que fico ante a imensidão de possibilidades à minha frente. Quando a minha vontade era testar uma por uma, viver cada resultado e depois escolher o melhor. Mas não se pode fazer isso. Nâo se pode testar todas as possibilidades. O jargão que rege e justifica o mundo contemporâneo “suas escolhas definem você” não deixa espaço para se escolher fazer tudo. É um abrir mão incansável, irremediável. “Ou isso ou aquilo”, já dizia Cecília Meirelles. Eu gostaria de um “ou tudo ou nada”, só pra variar.

(Raissa Lopes)

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Um comentário sobre “Jargão

  1. Adorei, Roli!Tudo bem, foi um gostar um pouco egoísta, admito.Você falou sobre mim enquanto falava de vc.Eu também sinto que ” as metades de mim talvez não formem um eu inteiro”.Com a diferença que sequer conheço metades de mim, são frações bem pequenas só (dessas que terminam em avos, sabe? rsrsrs).Enfim, você deu voz e forma a emoções, angústias e sentimentos que urgem dentro de mim há algum tempo.Representou bem todos que hj se enxergam com verdadeiras “metamorfoses ambulantes”. Raul ficaria orgulhoso.
    Beijaum,parabéns!

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